Por causa do coronavírus, medo e falta de atendimento deixam 50 mil sem diagnóstico de câncer no Brasil

Pelo menos 50 mil brasileiros deixaram de receber diagnóstico de câncer por conta da pandemia do novo coronavírus. Entre as principais causas, estão o cancelamento de consultas e cirurgias, além da falta de datas disponíveis para realização de exames e da recusa dos próprios pacientes em procurar atendimento, por medo do contágio. Os dados obtidos após levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) e pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) preocupam especialistas que preveem uma maior dificuldade no tratamento quando os números da Covid-19 diminuírem e os pacientes retornarem aos hospitais. O problema não é apenas uma realidade brasileira e foi destaque no Encontro Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, ASCO 2020, realizado no último fim de semana de forma virtual, que debateu sobre os reflexos da Covid-19 nos procedimentos oncológicos. No cenário que se desenha, especificamente no Brasil, médicos temem um novo gargalo, pós-pandemia, nos sistemas de saúde público e privado do país.

— O sistema já não dava conta antes da pandemia. Se já tínhamos recursos destinados à Saúde comprometidos, o colapso que vemos agora pode ser um processo contínuo. Talvez a gente não veja esse processo estancar — prevê o oncologista Daniel Tabak. — Além disso, perdemos um número muito grande de enfermeiros e médicos. Isso vem a debilitar nosso sistema de saúde.

Segundo o médico, a recessão econômica poderá aumentar o fluxo de pacientes que tiveram o diagnóstico represado, durante o confinamento, no sistema público.

— Grande parte dos brasileiros terão dificuldades de manter seus planos de saúde. Essas pessoas vão representar uma sobrecarga ainda maior para o sistema, que já tinha problemas, e potencialmente teremos um comprometimento dos resultados — preocupa-se.

Sobre o atraso nos diagnósticos de câncer, o oncologista lembra que os primeiros estudos com pacientes da Covid-19, divulgados pela China, trouxeram grande apreensão aos pacientes dos grupos de risco. Com o avanço da doença e o aumento exponencial do número de vítimas mundo afora, foi possível ver que algumas dessas premissas não correspondiam à realidade.

— Há vários fatores que confundiram. Quanto ao câncer de pulmão, por exemplo, o agravamento foi muito mais frequente porque os pacientes eram fumantes ou tinham doenças pulmonares. Não existe uma contraindicação absoluta para que pacientes continuem o tratamento. Eles ficaram assustadíssimos e não quiseram continuar — afirma Tabak. — A simples ideia de sair de casa para ir ao hospital é aterrorizante para as pessoas.

As comunidades científicas europeias e americanas se apressaram para definir novos protocolos. Segundo recomendações gerais da Sociedade Europeia de Oncologia Médica, pacientes de câncer têm maiores chances de evoluir para quadros graves da Covid-19 caso estejam fazendo quimioterapia (ou mesmo realizada nos últimos três meses) ou radioterapia extensiva.

Quem recebeu transplante de medula óssea ou células-tronco nos últimos seis meses e/ou faz uso de drogas imunossupressoras, também. Completam a lista pacientes de câncer linfático que ataque o sistema imunológico, mesmo sem o início do tratamento, como linfoma, mieloma e leucemia crônica). Tabak pondera que cada caso precisa ser avaliado:

— A quimioterapia não é o único fator relacionado. Isso foi um efeito, diria, maléfico. A ideia de que a quimioterapia sempre promove um risco aumentado é equivocada. Temos de considerar que mais da metade dos pacientes que têm câncer são idosos, grande parte são obesos. Não dá para relacionar apenas o diagnóstico de câncer com a complicação que eles apresentaram.

Um dos exemplos de diagnósticos que deixaram de ser feitos e podem resultar na evolução e, consequentemente, no rápido agravamento da doença é o câncer do intestino grosso, que depende de uma colonoscopia.

— É o caso de algumas doenças hematológicas como linfomas agressivos e leucemia, com os cuidados no sentido de identificar se é portadora do coronavírus ou não pelo teste PCR. Mas os vários centros de tratamento tomaram todas as precauções.

O oncologista lembra que, no caso de tumores sólidos, o procedimento usual é encaminhar cirurgias seguidas de sessões de quimioterapia auxiliar, chamada adjuvante. Com a pandemia, há pesquisadores recomendando a inversão do processo por um motivo simples: é desejável que os pacientes não estejam no hospital, já que o pós-operatório de cirurgias de grande porte costuma exigir algum tempo de permanência nas UTis.

Em seu site, o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), referência no tratamento oncológico, recomenda que os profissionais orientem seus pacientes a não procurarem os serviços de saúde para detecção precoce de câncer, especialmente em casos sem suspeita de lesão maligna:

“Além de postergar o rastreamento mesmo dentro das recomendações das diretrizes ministeriais, nesse momento é ainda mais importante desencorajar práticas de rastreamento fora da população-alvo e da periodicidade recomendadas e também para cânceres para os quais não há recomendação de rastreamento, como os de próstata, tireoide e ovário, entre outros”.

— Existe a recomendação de que os diagnósticos sejam retardados em pacientes que estão fazendo exame de rotina. Isso tem uma implicação muito grande para o futuro em algumas sociedades. Essa decisão sempre é partilhada com o paciente, reconhecendo que existe o risco do deslocamento. Isso representou realmente um dilema muito grande para o próprio paciente — salienta Tabak.

Sobre essa difícil escolha a ser feita por pacientes e médicos, a psicóloga especializada em saúde mental, Lyani Prado, é enfática:

— Sentimentos como medo e ansiedade são normais nesse contexto. Mas as pessoas não podem se deixar dominar, precisam continuar, pois tratamento nenhum se abandona. O maior cuidado que elas têm que ter é o autocuidado. Além disso, existe toda uma preocupação com a prevenção. Consultórios e ambulatórios estão seguindo as recomendações para garantir a segurança de seus pacientes. Por medo de um possível contágio, essas pessoas podem estar acelerando em muito o seu processo, fazendo com que depois seja mais difícil ou impossível de revertê-lo.

A dona de casa Eliana Melchiades, de 43 anos, sentiu na pele como um diagnóstico tardio pode ser cruel. Após verificar o aparecimento de um pequeno caroço no seio, em fevereiro do ano passado, decidiu investigá-lo só em outubro. À essa altura, sua mama esquerda já havia sido tomada pelo câncer e a direita tinha 17 linfonodos. Após passar por 12 sessões de quimioterapia, teve sua cirurgia marcada e realizada, em meio à pandemia.

— Num primeiro momento fiquei receosa e pensei ‘os hospitais devem estar lotados’. Mas meu médico foi firme, disse que minha cirurgia não podia ser cancelada e que não havia risco, pois o hospital onde eu seria operada contava com uma ala especial, separada, para os pacientes de coronavírus. Ele me passou muita segurança. Fui com medo, mas fui. Fiz a cirurgia no dia 24 de abril e deu tudo certo. Enquanto internada, usei máscara o tempo todo e só pude ter um acompanhante fixo. Agora, continuarei com a quimioterapia.

Além do câncer, as doenças cardiovasculares representam parcela expressiva das principais causas de mortes no Brasil. Luiz Maurino Abreu, doutor em cardiologia pela UFRJ e ex-diretor do Hospital Federal dos Servidores do Estado, no Rio, reforça que o sistema enfrenta deficiências há anos. Ele prevê que, no âmbito de sua área, vários pacientes que aguardavam na fila para cirurgias — que por vezes demoram mais de um ano — possivelmente morreram por conta da Covid-19, incluindo aqueles que, apesar de pertencerem a um grupo patológico, tinham uma vida plena.

— A volta não será súbita. Haverá uma gradação que permitirá uma volta ao normal, mas o normal nunca foi o que gostaríamos. A norma é um atendimento e um fluxo muito ruim para esse tipo de paciente. Parcela da população que precisava foi vítima da Covid-19 e não se recuperou, e a outra vai atrasar ainda mais por conta da própria preocupação. Teremos enfermarias menores, espaçamento inicial, isso tudo vai gerar pequenos outros gargalos antes de um gargalo forte — afirma Maurino.

Na avaliação de Daniel Tabak, a expansão emergencial providenciada pelos diferentes entes federativos como resposta à crise da Covid-19 no Brasil pouco contribuirá para atenuar o gargalo que se avizinha no horizonte.

— Houve um desvio de foco gigantesco. Um crescimento de leitos de UTI em detrimento de outro tipo de acesso. Esse volume enorme de respiradores, o que vamos fazer com isso? Ninguém sabe. Você não tem uma demanda para esse tipo de maquinário em condições usuais. (O Globo)

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