'Vítimas de letalidade policial são mais jovens', diz pesquisador; em 80 horas, cinco morreram no Rio

Sentada nos ombros de um adulto, a pequena Sofia, de 07 anos, viu seu irmão mais velho, Dyogo Costa Xavier de Brito, ser enterrado nesta terça-feira aos 16 anos. O adolescente, que sonhava ser jogador de futebol, foi morto com um tiro nas costas durante operação policial na Favela da Grota, em Niterói. Ao pedir para fazer uma oração, a menina calou os gritos de protesto dos amigos e parentes do jovem que foram ao Cemitério São Francisco Xavier, em Charitas.

— Deus, que cada pessoa que esteja aqui sempre viva bem, que não perca ninguém assim desse jeito. Sempre quando alguém estiver assim bem triste, pega as suas mãozinhas e lava o coração dele. Deus, abençoe quem está aqui. E que todos sejam do bem e não sejam do mal, para que não façam coisa errada — disse Sofia, aos prantos.

Em 80 horas, outras quatro famílias choraram a perda de jovens para a violência na Região Metropolitana do Rio. Da manhã da última sexta-feira até a tarde de segunda-feira, também foram mortos a tiros Gabriel Pereira Alves, de 18 anos, Lucas Monteiro dos Santos Costa, de 21, Tiago Freitas, de 21, e Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior, 19 anos. Dyogo e Henrico foram mortos durante ações da Polícia Militar. Gabriel, que também tinha o sonho de se tornar jogador de futebol, foi atingido por uma bala perdida a caminho para a escola, na Tijuca. Já Lucas e Tiago foram executados por um grupo que invadiu uma festa em Água Santa.

Dyogo era jogador de futebol das divisões de base do América. Quando foi morto, com um tiro nas costas, ele ia para um treino e levava, na mochila, um par de chuteiras.

— O PM me falou que o meu neto era traficante. Não precisavam ter matado meu garoto. Era só abordar e ver que a mochila do Dyogo carregava a chuteira e o dinheiro da passagem — disse o motorista de ônibus Cristóvão Xavier, de 63 anos, avô de Dyogo. — Eu peguei ele no hospital quando ele nasceu, e agora peguei ele no colo quando ele morreu.

A Polícia Civil ainda vai ouvir a versão dos agentes dos batalhões de Choque e de Ação com Caes (BAC) que participaram da operação.

Em 80 horas, violência tira a vida de cinco jovens e deixa famílias destroçadas Foto: Reproduções

Trabalho e estudo

A 50 quilômetros de Niterói, outro jovem foi enterrado nesta terça. Henrico, de 16 anos , foi morto durante uma operação da PM na favelaTerra Nova , em Magé , na tarde de segunda-feira. Segundo parentes, ele havia ido à comunidade buscar uma motocicleta que estava no mecânico. O rapaz foi baleado na cabeça.

Ao registrarem o caso na Delegacia de Homicídios da Baixada, PMs afirmaram que o jovem estava armado. Sua família, entretanto, diz que ele era inocente. Desde o ano passado, Henrico trabalhava como estoquista num supermercado de Magé. Em seu perfil numa rede social, é possível ver várias fotos do jovem com o uniforme do estabelecimento, que confirmou a contratação. Ele também estudava e fazia um curso.

Em nota, a PM afirmou que apreendeu com Henrico um revólver, um radiotransmissor e drogas. O caso será investigado pela DH da Baixada.

Para o pesquisador Pablo Nunes, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, a proporção de jovens entre as vítimas de assassinatos no Rio deve aumentar nos próximos anos, se for mantida a tendência atual de aumento de mortes em confrontos.

— Vítimas de letalidade policial são, em média, mais jovens do que as outras vítimas de letalidade violenta em geral. Como os homicídios estão caindo e as mortes pela polícia subindo, em alguns anos, vamos ter a redução da idade média dessas vítimas — disse Nunes.

Ao comentar as mortes dos jovens, o governador Wilson Witzel disse que as polícias estão trabalhando para evitar outros casos:

— Se os criminosos acham que matando inocentes vão fazer com que o estado pare, eles estão absolutamente enganados. Muito pelo contrário. O estado lamenta essas mortes. Vamos trabalhar para evitar novos casos. É um compromisso com a população, inclusive a mais pobre. Nós vamos começar algumas operações de ocupação para poder livrar nossas comunidades desse terrível mal.

O GLOBO

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