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E-mailCriminalista denuncia esquadrões da morte e chacinas que ocorrem em Alagoas
Luiz Flávio Gomes, especialista em Direito Penal, é doutor pela Universidade Complutense de Madri, na Espanha, e mestre pela Universidade de São Paulo. Ele dá aulas de pós-graduação no Brasil e no exterior. Já atuou como advogado, promotor de Justiça e juiz de Direito e foi consultor da Organização das Nações Unidas.
Ele chama atenção para a
falta de respeito aos direitos humanos no Brasil, e diz que tratar detentos como
animais só aumenta o descaso pela vida, e, desta forma, agrava a criminalidade
(leia mais sobre o assunto na página 14). O jurista denuncia a atuação de
esquadrões da morte em Alagoas e a morosidade da Justiça em punir os grupos que
atacam até moradores de rua.
Em 2010, 2.226 pessoas foram assassinadas
em Alagoas. A taxa de homicídios foi de 71,3 por 100 mil habitantes, uma das
mais altas do mundo.
1 – Aconteceram menos homicídios em 2010 em São
Paulo e no Rio de Janeiro. A violência diminuiu?
Houve uma redução do
número de homicídios, mas foi só em São Paulo e no Rio de Janeiro. No País a
situação ainda é crítica. O Brasil é o sexto país mais violento no mundo. Temos
24 mortes a cada 100 mil pessoas. Para a Organização das Nações Unidas, 10
mortes por 100 mil é violência epidêmica. E em Alagoas, o número de homicídios
disparou.
2 – Como entender esse fenômeno?
Alagoas tem 71
mortes para cada 100 mil habitantes. Isso decorre da impunidade quase que
absoluta, da desorganização social e da não punição dos esquadrões da morte. Lá
morador de rua tem sido assassinado. Isso explode o índice. E a Justiça não pune
ninguém, é morosa. A máquina do Estado em Alagoas é “Máquina Mortífera”. A
Polícia mata, ninguém apura, o Ministério Público não apura, o judiciário é
lento.
3 – Por que proteger criminosos? Por que falar em direitos
humanos?
Defender direitos humanos é importante porque assim se protege
todo mundo. Ficam protegidas as vítimas dos ataques dos criminosos e os
criminosos da violência do Estado. Isso é importante para manter a tranquilidade
e o respeito. É preciso ver os outros como seres humanos. Estamos falando em
não-violência, na base para construirmos uma sociedade sadia, próspera, que
tenha futuro, onde as pessoas vivam com tranquilidade.
4 – Como essas
ideias são recebidas no exterior?
A tendência no mundo é por estados
democráticos e éticos. É o que as pessoas querem. Algumas ditaduras estão caindo
porque a democracia está chegando, mas só a democracia não basta. Precisamos de
uma democracia ética, que envolve o respeito a outras pessoas. É o que o mundo
inteiro quer. Os melhores países para se viver são os países democráticos e
éticos.
5 – A Associação de Juízes pela Democracia defende que as
indicações para o Supremo Tribunal Federal sejam mais democráticas.
Concorda?
Sim. Temos que tentar democratizar tudo, inclusive a
composição do Supremo. Não dá para deixar tudo nas mãos de uma única pessoa, do
presidente. Em vários países há mecanismos democráticos, com a Câmara, Senado,
Judiciário e Executivo participando.
6 – Na Justiça é possível pensar
em participação popular?
Sim e aí que entra a questão da conciliação e
mediação. Ser humanista é ver as pessoas como seres humanos, dialogar e
encontrar a melhor solução para o conflito.
7 – Contra o crime,
parlamentares defendem ampliar o rigor das penas, o tempo de prisão. É o
correto?
Não, é algo inútil. Aumentar o rigor de prisão é o que os
legisladores vêm fazendo desde 1940. Oitenta por cento das leis aprovadas de
1940 a 2010 estão relacionadas a tornar a legislação mais dura. E isso nunca
surtiu efeito preventivo, o crime só aumenta. As leis já são absolutamente
rigorosas. A questão é que elas não são cumpridas.
8 – E a maioridade? Sob argumento de
impunidade, muitos defendem prisão para crianças e adolescentes. Como vê o caso
do garoto de 14 anos flagrado 17 vezes em infrações?
O caso prova a
falência do Estado. Ele passou 17 vezes pelas mãos do Estado e até agora nada
foi feito para ajudá-lo como ser humano. Isso é sério. A sociedade tinha que
repensar a visão sobre os menores abandonados. Meninos de rua seguem esse
caminho: crescem na rua, sem escolaridade, sem profissão, e então partem para o
crime. É quase uma carreira anunciada. A gente sabe que ele vai ser venenoso.
Estamos criando uma sociedade que convive com a violência como se não tivesse
nada a ver com o assunto.
9 – Educar é melhor que reprimir?
A
política de prevenção sempre é mais eficiente. O Canadá é um dos países que têm
um dos menores índices de violência. Por quê? Prevenção. E se não foi possível
evitar o crime, temos que pelo menos tratar o menor, cuidar dele. É preciso
formar a pessoa. O que o menino não tem é noção dos valores. Não tem a mínima
ideia do que é família, dignidade. O que acontece? Essas pessoas perdem o amor
pela vida. São tão massacradas que morrer ou viver vira a mesma coisa. Quem
perde o amor pela vida mata com uma facilidade enorme.
10 –
Instituições para menores são quase cadeias, não?
Sim. E seja para
adultos ou para crianças, o sistema só cumpre uma função: de jaula. Antigamente
havia preocupação em recuperar o preso. A família ia visitar, havia religião,
escola, trabalho, assistência médica. De 1990 para cá no Brasil a prisão virou
somente jaula.
Um quadrado para recolher as pessoas, um cubículo sem
nenhum objetivo educativo, familiar, religioso, nada. A sociedade quer resolver
o crime, mas quer que os outros resolvam. Não toma iniciativa. O crime nasce na
sociedade e é problema da sociedade. Não adianta ignorar.
Por Daniel Santini
daniel.santini@folhauniversal.com.br
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