Um dos mais icônicos narradores de futebol brasileiro nas últimas três
décadas, Januário de Oliveira esteve em Natal para passar as festas de
fim de ano com seus familiares que moram aqui. Longe da televisão desde
1999 por problemas de saúde, o ex-locutor concedeu entrevista a TRIBUNA
DO NORTE e falou sobre Neymar, CBF, momento atual do futebol brasileiro e
a figura do empresário no meio esportivo. Sem fugir de nenhuma
pergunta, fez críticas a própria imprensa, que, segundo ele, é culpada
pela vulgarização da palavra craque e também revelou como surgiu os
bordões de futebol que ele criou e está marcado na memória da grande
maioria dos amantes brasileiros do maior esporte do planeta.
A palavra craque está sendo usada de maneira errada?
Podem
reclamar que sou saudosista, mas ninguém vive sem saudade. Na minha
época, vi craques como Ademir da Guia, Dirceu Lopes, que hoje em dia
seriam do nível de Messi, ficar fora da Seleção, pelo simples fato de
ter jogadores mais qualificados. Tínhamos Zico, Rivelino, Tostão,
Gérson, só craques, de verdade. Atualmente, qualquer jogador que se
destaque no seu clube, é chamado d craque. Todo dia surge um novo Pelé,
um novo Zico e não passam de promessas. Estão dizendo que o Paulo
Henrique Ganso (meio campo do Santos), é a salvação para a camisa 10 do
Brasil. Só podem estar de brincadeira. Ele é apenas um bom jogador, que
ainda tem que provar que merece jogar na Seleção. O Neymar é
diferenciado? Não tem como negar, mas, daí, dizer que ele é o melhor do
mundo são coisas completamente diferentes. Ele é endeusado. Mas, em que
posição ele jogaria na seleção de 1970? A palavra craque está
vulgarizada.
O Romário disse, em entrevista, que o Brasil está abaixo da Espanha, atualmente, no futebol. O Senhor concorda?
É
lamentável o estado do futebol brasileiro. Passamos a pior crise dos
últimos 50 anos. A Espanha tem jogadores de qualidade em todas as
posições e nós não. Estamos passando por um problema grande de
jogadores. A qualidade do futebol brasileiro caiu e isso é notório. Até
bem pouco tempo atrás, nossos jogadores sempre estavam na disputa pelo
premio de melhor do mundo. Na sua maioria, meio campistas e atacantes.
Hoje, mesmo a FIFA tendo aumentado o número de concorrentes para mais de
30, não conseguimos colocar nenhum, com chances reais de ser eleito o
melhor jogador. Temos um lateral direito, que é o Daniel Alves e o
Neymar, que joga no Brasil. A Espanha teve vários. Mas, o Brasil tem
que tomar cuidado com outras seleções também. A Alemanha está montando
um time muito forte e de qualidade. A Itália também. É preciso que nossa
Seleção se monte o quanto antes, para não passar vergonha na Copa.
Tenho medo que aconteça um desastre e o Brasil não consiga passar das
quartas de finais.
A derrota do Santos para o Barcelona, na final do Mundial de Clubes, deixou essa diferença ainda mais evidenciada?
Aquilo
foi uma brincadeira. A primeira decisão que vi de um Mundial de Clubes,
foi em 1962. Nunca tinha visto um massacre tão grande quanto aquele. O
Santos foi um fiasco e o Barcelona brincou de jogar futebol. Tanto que o
Neymar, no final, disse que tinha aprendido uma lição, tinha aprendido a
jogar futebol. Espero mesmo que tenham aprendido, porque os
ensinamentos anteriores, foram péssimos. Devem ser esquecidos. O
resultado foi barato. O placar de 4x0 ficou de bom tamanho para o
Santos. Poderia ter sido pior, já que o Barcelona meteu duas bolas na
trave.
Falta humildade aos jogadores de hoje?
Não
só humildade, como também direção. O futebol brasileiro é muito mal
dirigido. Começando pela CBF. Não temos mais dirigentes como o próprio
João Havelange. Ele deveria ter ensinado ao Ricardo Teixeira, como se
comanda uma Confederação. Ele conseguiu transformar a FIFA em um órgão
mais importante do que a ONU.
O futebol, hoje em dia, está nas mãos dos empresários?
Hoje
não tem mais empresário de futebol pobre e todo mundo quer ser
empresário. O que mais tem é ex jogador se tornando empresário. Tem
jogador que, antes de encerrar a carreira, se torna empresário. É o caso
do Ronaldo Fenômeno. É brincadeira. Vá no ABC, no América, em qualquer
time de futebol, tem meninos de 12, 13 anos, que já tem empresários.
Existe um torneio no interior do Rio Grande do Sul, com garotos de até
12 anos, com grandes clubes do Brasil e da Argentina, que participam da
disputa. Todos os meninos estão lá com seus empresários de lado. Isso é
criminoso. Não se pode assinar contrato com essa idade. Mas, eles dão
emprego para o pai ou para mãe e ficam com a preferência em, se um dia,
esse menino virar jogador de futebol, contratar.
Na sua época, o senhor recebia ligações de empresários?
Nossa,
cansei de receber. Eram muitas. Até de empresários da Colômbia. Recebi
gente na rádio Nacional querendo mostrar jogadores. Um dia, um
empresário me encontrou em um hotel em Recife/PE e eu decidi levar o
jogador dele, que era goleiro, para treinar no Vasco da Gama/RJ. Foi a
maior burrice da minha vida.
O que o senhor acha dessa relação entre imprensa e dirigentes de futebol?
Isso
é uma promiscuidade. Desculpa o termo, mas chega a ser nojento. Tem
casos de jornalistas que viraram dirigentes e nem sabemos como. Fui, nem
sei se sou ainda, amigo de um jornalista que virou presidente do
Flamengo. Tem um empresário em São Paulo, que era repórter de campo.
Hoje ele é o principal patrocinador de Ronaldinho Gaúcho. E eu pergunto:
onde estava esse dinheiro todo que passava por mim e eu não via? Teve
um repórter, que virou dirigente, que o clube que ele trabalhava, deu um
cheque de US$ 1 milhão, para pagar os salários atrasados desse clube.
Conheci repórteres, ficavam eles, telefonando para outros colegas,
passando notícias de jogadores. Teve um clube do interior de São Paulo,
que deu um jogador para ele ser o empresário, para ele colocar jogadores
em outros clubes. Descobriram e ele perdeu o emprego. Mas, isso ocorre
há muito tempo. Na minha época, era novidade, mas hoje está tudo
escancarado.
Contra ou a favor de torcida organizada?
Sou
contra. Quando trabalhavam, dizia: não são torcidas organizadas. A
maioria são grupos terroristas organizados. Estou morando em Goiânia/GO e
lá morre um por semana. Mas isso não é só lá. É errado os dirigentes
darem voz a esse tipo de torcida.
O mundo do futebol é podre?
Lamentavelmente,
é. Já foi um negócio sadio. Me sinto felizardo por ter vivido grandes
épocas do nosso futebol. Mas, me entristece, quando comecei a viver o
futebol na década de 80 e 90. Felizmente parei. Tem dirigente que torce
contra o próprio time, porque, na crise, ele quer tirar vantagem.
Mudando um pouco de assunto, como surgiu seus bordões no futebol?
O
primeiro, foi o "Tá aí, o que você queria", que surgiu na década de 70,
em um jogo do Fluminense, pelo Carioca. A partida estava prevista para
começar às 20h e devido as chuvas e falta de energia, começou perto das
23h. Quando o árbitro decidiu começar a partida, eu soltei o "Tá aí o
que você queria". Logo depois, narrando um gol do Vasco da Gama,
gritei: ´Dinamite, é disso que o povo gosta´´. E virou outro bordão.
Isso na época do rádio. Quando fui para a televisão, em 1992, Denner
tinha sido contratado pelo Vasco e em um jogo, marcou quatro gols e o
último deles, foi uma pintura. Driblou quase o time adversário todo.
Como não tinha mais adjetivo para usar, soltei o ´Cruel, muito cruel´.
Outra vez, narrando um jogo do Flamengo contra o Sport, na Ilha do
Retiro, o Mozar, zagueiro carioca, recuou a bola para o goleiro Gilmar.
Ele foi tentar agachar para pegar a bola, que vinha devagar e acabou
deixando-a passar entre as suas pernas, entrando de mansinho no gol. Foi
quando usei, pela primeira vez: ´Sinistro, muito sinistro´.
Mas, além desses, tiveram outros?
Em
uma partida que não me lembro, pela TV Educativa, fiz amizade com os
maqueiros do Maracanã. Quando eles entravam em campo para tirar algum
jogador contundido, sempre dizia que estava acontecendo um ´carreto´. Em
outra partida, no mesmo Maracanã, um jogador caiu em campo e ficou
demorando para se levantar. Aí, soltei: ´Tá lá, um corpo estendido no
chão´. No outro dia, todos na rua já estavam com o bordão na ponta da
língua.
Super-Ézio foi invenção sua?
Uma
vez, estava almoçando com um amigo meu, no Rio de Janeiro, dias antes
de um clássico entre Fluminense e Botafogo, isso na década de 90. E
estávamos elogiando o Ézio, atacante tricolor, que era o único jogador
que escapava naquele time, que era muito ruim. Foi quando chamamos ele
de super-herói, por conseguir fazer gols, mesmo jogando em um time
fraco. No clássico, o Fluminense venceu por 3x0 e ele fez dois gols. Foi
quando gritei ´Super-Ézio´.
O senhor chegou a conversar com ele sobre esse apelido?
O
Ézio foi um amigo que eu fiz durante meu tempo como locutor. Fomos
amigos de verdade. Sempre ligávamos um para o outro. Fiquei muito
abalado com sua morte. Ele teve um gesto muito bonito. Depois que saiu
do Fluminense, foi jogar no Atlético/MG e seu último jogo como
profissional, foi justamente contra o time carioca. A camisa dessa
partida, ele fez questão de me dar.
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