Inspirado pela memória afetiva e preocupado com o destino do companheiro
de longa data, que de tanta importância se torna um membro da família,
Geraldo Azevedo canta o São Francisco como uma ode em agradecimento a
presença do rio em sua vida. Um convívio estreito, diário, do nascimento
até os 18 anos, quando partiu para a cidade grande em busca de espaço e
reconhecimento para sua arte lapidada nas águas que banham Petrolina,
cidade onde nasceu. O pernambucano está na estrada divulgando seu mais
recente trabalho, "Salve São Francisco", CD/DVD lançado em 2011 pela
gravadora Biscoito Fino, onde revela toda sua admiração pelo Velho
Chico. Azevedo fez show neste sábado (14), no Teatro Riachuelo. Autor
de clássicos da música popular brasileira como "Táxi Lunar", "Dia
branco", "Bicho de sete cabeças", "Dona da minha cabeça" e "Quando
fevereiro chegar", só para citar as mais famosas, o cantor e compositor
pernambucano conversou com a reportagem do VIVER por telefone do Rio de
Janeiro, cidade onde mora desde fim dos anos 1960 - e foi o próprio
Azevedo quem atendeu o telefone. Com bom humor, falou sobre o novo disco
"Salve São Francisco", sua relação com o rio e as parcerias com
potiguares:
Geraldo
Azevedo: Sou ribeirinho, nasci na beira do rio, fui criado na roça,
pescava, é onde tomava banho todo dia antes de ir pra Recife - foi lá
que comecei a tomar banho de chuveiro, antes era tudo no rio. É como uma
veia que corre no meu corpo!
Divulgação
Geraldo, este trabalho reflete uma preocupação atualizada com o São Francisco. É um projeto novo?
Nada,
é um desejo antigo, um projeto antigo que tenho a bastante tempo, desde
bem antes desse papo de transposição virar moda. Não podia mais adiar
esse lançamento, estão maltratando muito o São Francisco. De novo mesmo
só as músicas, dois terços delas são inéditas. Também regravei quatro,
todas falando sobre o rio - este é o primeiro trabalho temático que
lanço na carreira.
Você é contra o projeto de transposição do rio São Francisco?
Olha
só, não que eu seja contra, sei da importância dessa transposição para o
Nordeste, mas o problema é que estão explorando muito e cuidando pouco.
A natureza é grandiosa, mas finita, e não há como pensar apenas em
aproveitar a água do São Francisco sem verificar o grau de assoreamento,
sem combater o desmatamento das margens, as irrigações clandestinas que
desviam o leito do rio. Ninguém repara nisso, e se repara o processo de
revitalização é lento. Então, respondendo sua pergunta de forma
objetiva, diante desse quadro sou contra a transposição neste momento.
E onde entra seu novo disco nessa história?
O
rio está em crise, é fato, a água potável no mundo também, e com esse
trabalho chamo atenção para o cuidado que devemos ter com ela. É a água,
inclusive, que faz os sentimentos fluírem. O São Francisco é a coisa
mais importante pra mim, sou ribeirinho, nasci na beira do rio, fui
criado na roça, pescava, é onde tomava banho todo dia antes de ir pra
Recife - foi lá que comecei a tomar banho de chuveiro, antes era tudo no
rio. É como uma veia que corre no meu corpo!
Este é seu primeiro álbum (CD/DVD, lançado em 2011 pela Biscoito Fino) temático da carreira...
Exatamente.
São oito músicas inéditas e quatro regravações que tem a ver com o rio:
"Ciúme" (Caetano Veloso), com participação de Ivete Sangalo; "Barcarola
do São Francisco", parceria com Carlos Fernando que canto com Djavan;
"Petrolina e Juazeiro", minha e de Moraes Moreira; e "Riacho do navio"
dos mestres Luiz Gonzaga e Zé Dantas que faço com Alceu Valença. (neste
momento da conversa Geraldo Azevedo começa a cantarolar: 'Riacho do
Navio / Corre pro Pajeú / O rio Pajeú / Vai despejar no São Francisco / E
o rio São Francisco vai bater no meio do mar...'). Quando gravei essa
música a água doce entrava 30 km no mar, hoje a foz já é salgada, só com
isso vemos que tem alguma coisa errada.
Além das novidades, quais as músicas que não podem faltar nos seus shows?
"Táxi Lunar", "Dia branco", tem um monte, as pessoas pedem, canto há trinta anos e não vou deixar de cantar nunca. [risos]
Pensa
em novas versões para "Cantoria" (com Xangai, Elomar e Vital Farias)
e/ou "O grande encontro" (com Alceu Valença, Zé e Elba Ramalho)?
Rapaz,
sempre rola esse papo, essas vontades, mas está cada um pra um lado,
envolvido em outros projetos, que acaba não rolando. Uma hora quem sabe.
As portas estão sempre abertas.
Você tem uma história com Natal, com os músicos daqui, tem parceiros potiguares, não é?
Sim
sim, gosto demais da turma de Natal, tenho muito orgulho de ter
recebido o título de cidadão honorário. Também tenho um parceiro muito
importante daí, Babal, pra mim entre os melhores compositores do Brasil.
O percussionista potiguar Mingo Araújo, meu compadre, padrinho da minha
filha, e que hoje tem carreira internacional. Ele tocou comigo por dez
anos, e essa história toda no exterior começou quando fomos fazer show
na Rússia. Foi a partir dali que fez contato e acabou indo parar na
banda do Paul Simon. Outro grande amigo é Mirabô Dantas, grande
compositor, me influenciou muito. Ele tem um xote bem diferente com
Capinam que me inspirou muito, e "Moça Bonita" (outro clássico da MPB)
foi inspirada em música de Mirabô. Ele está fumando careta ainda? Sempre
pego no pé daquele magrão que cigarro não combina com cantoria. [risos]
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