Imprimir
E-mailNEOCORDEL - O velho dilema entre tradição e modernidade incute agora na manifestação das mais genuínas do cancioneiro nordestino: o cordel. O livreto pendurado em barbantes, tradicionalmente comercializado em feiras e cantado por violeiros recebe nova roupagem, agora chamada Neocordel. São publicações de mesmo tamanho (10,5cm por 15cm), mas com temáticas, produção gráfica e formato poético diferentes. Mais pobres se levada em conta a carência da métrica ou da estampa das xilogravuras nas capas - também uma tradição artesanal dos cordeis publicados nos últimos 50 anos. No entanto, os neocordeis apresentam layout modernoso, diálogo mais didático, sem as amarras formais da literatura de cordel e tem recebido mais aceitação, sobretudo em escolas e instituições públicas.
O autor do neocordel é o cearamirinense João Batista Campos, 63. O então contador hoje dedica seu dia à produção e divulgação de novos folhetos. Já pretende patentear a ideia, segundo ele, pioneira. São mais de 63 mil neocordeis vendidos em três anos. Os números impressionam. Sobretudo quando estão contabilizados 12 mil livretos comprados pela secretaria estadual de Educação para servirem como objeto auxiliar de alfabetização em núcleos educativos da rede pública de ensino. É que é praticamente inócua a participação do poder público no incentivo à produção de cordeis. Poetas populares tradicionais encontram barreiras culturais quase intransponíveis para vender seus produtos. Quem vive hoje exclusivamente do cordel passa sérias dificuldades financeiras.
O pioneirismo do neocordel parte principalmente da iniciativa de João Batista em abrir portas para a aceitação do produto. Quando enveredou pela produção de cordeis ou neocordeis, em 2005, João Batista afirma ter realizado ampla pesquisa de temáticas abordadas em várias capitais nordestinas e também de pontos de venda e conhecimento do público. ‘‘Verifiquei assuntos ultrapassados como a saga de Lampião, Padin Ciço, a briga do vaqueiro com a cobra, a figura do corno, e também o desconhecimento do aluno ou do adulto a respeito do cordel. Resolvi então criar o neocordel, como forma de incentivar o hábito da literatura’’. João Batista reconhece a falta da regra metrificada do cordel - embora os neocordeis respeitem a rima das sextilhas e setilhas - ou da possibilidade da cantoria do violeiro com os neocordeis. ‘‘São poesias afeitas à conversa, ao diálogo; é um modo mais fácil de penetração nas escolas. São temáticas educativas, instrutivas, paradidáticas, que abordam questões sociais, ambientais, sátiras e os valores nordestinos’’.
Com estas abordagens inseridas em 98 neocordeis já escritos, João Batista conseguiu abertura em livrarias até então fechadas à produção de cordeis. O neocordelista - autor do livro de poemas líricos Versos à mulher amada (2000) - também visita escolas e é convidado a proferir palestras a respeito da produção literária e das temáticas abordadas. Segundo ele, em pesquisa realizada em 2005, descobriu que 68% dos alunos desconheciam o cordel. ‘‘O neocordel é um neologismo de características revolucionárias. Não submeto meu intelecto à camisa de força imposta pela métrica. Tudo evoluiu, menos o cordel. Há 40 anos o homem chegou à Lua e o cordel é escrito da mesma maneira há 100 anos. A internet mudou a forma de escrita e de informação e o cordel está no tempo do telégrafo’’. E completa: ‘‘Minha poesia não é feita para cantar porque os cantadores também foram superados, já não cantam mais versos de cordeis em feiras. Mas temos ótimos poetas populares, como Antônio Francisco, Zé Saldanha, que ainda não teve o reconhecimento merecido’’.
Cordelistas do RN defendem tradição
A poesia popular da literatura de cordel foi originalmente oral até ganhar os folhetos rústicos ou outra qualidade de papel, como o jornal. Por isso, os versos de cordel são escritos amparados na métrica e na rima, de forma a possibilitar a leitura cantada do poema. As rimas do chamado neocordel eliminam a métrica - uma das regras mais habituais e alicerçadas do cordel - e, por consequência, a possibilidade de cantoria. ‘‘A magia do cordel é a cantoria. Se não for assim é apenas um livro do tamanho do cordel com amontoado de palavras’’, definiu o presidente da União dos Cordelistas do RN e poeta popular responsável pela da Casa do Cordel, Abaeté.
O cordelista explica a tradição mantida deste a época de Camões, criador das estrofes, hoje marca da literatura de cordel. ‘‘São 36 regras empregadas no cordel. Quem não sabe escrever com a métrica se aproveita da difusão da cultura do cordel para vender esses livros que não são cordeis. Se você perguntar a 100 cordelistas, 101 vão dizer a mesma coisa’’. Abaeté defende também as temáticas usuais nos folhetos de cordel. ‘‘Os de Lampião são os que mais vendem. Também trabalhamos com o humor. Não escrevemos ficção. Os cordeis são frutos de trabalho de pesquisa, de assuntos também atuais. Não escrevemos qualquer coisa que vem à cabeça. Agora, cada cordelista tem sua veia poética. Sou do sertão e 80% da minha obra fala dos costumes sertanejos’’.
Abaeté tem décadas de atividade como cordelista. Seu acervo é de 500 cordeis. Ele preside a Unicodern, hoje com 50 membros. A sede está situada na própria Casa do Cordel (à Rua Vigário Bartolomeu, Cidade Alta) é um pequeno corredor preenchido com milhares de cordeis. É o único local da cidade destinado a este tipo de literatura. Autores variados, como Concriz, Antônio Francisco, Bob Motta, Crispiniano Neto, Izaías Gomes, Manoel Azevedo, Cefas Carvalho e outros ganham espaço na Casa. São centenas de títulos, além de vasta literatura a respeito do cangaço.
| Catolé News - O portal que dá notícias da nossa gente! Rua José Bonifácio, 34 1º Andar Bairro do Batalhão - Catolé do Rocha Paraíba Telefone: (83) 8851.1734 - 9642.0101 E-mail: catolenews@gmail.com |