SEVERINO NOÉ, O VELHO ANDARILHO DO SERTÃO

Por: Humberto Vital - Catolé News 

 

 

Nas andanças pelas estradas que cortam os longínquos recantos do Alto-Sertão paraibano, é fácil encontrar aquele senhor de botas longas, de barbas longas de ouro o brilho do seu colar.

  

Carregando consigo a alma, revestida de sofrimento, surrada pelo tempo e arrastando o seu velho matulão. Os bizacos, empoeirados, roupas em farrapos, chapéu de palha quebrado nos olhos, e o cajado na mão.

  

Alí vai o velho, em transe, de barbas longas e passadas largas com a pele queimada, sem olhar para trás. Encandescido pela irradiação solar, leva consigo as amarguras da vida velha, retratada por um semblante ríspido e inquestionável.

 

  

O senhor de botas longas, de barbas longas de ouro o brilho do seu colar 

 

O velho andarilho que apesar da idade, segue na sua busca de conhecer o mundo, aprendendo, ensinando e com isto trilhando a estrada do seu crescimento espiritual.

  

Vai buscando na aurora matinal, no tórrido calor da tarde, ou no pôr do sol, cruzar um destino imaginado, percorrer os caminhos do sertão, em puros devaneios, que em idas e voltas acaba perdido no compasso do tempo.

 

  

Mas quem é ele?

  

Sabe-se pouco deste senhor, repito, de barbas longas e olhar cabisbaixo, contido em seu mundo melindre.

  

Esse é Severino Noé, ou Major, como gosta de ser chamado. Aquele mesmo que desafiou o poeta Zé Ramalho, seu conterrâneo. Num desafio retratado por Aurílio Santos, fotógrafo e gravurista, também brejo-cruzense, e pelo poeta Afonso Costa.

  

Severino Noé nasceu em Brejo do Cruz (PB), no ano de 1928. Foi casado, perdeu sua esposa, num trágico suicídio, mas lhe restou um filho, Francisco.

  

 

É andarilho por opção, pois o seu filho, Francisco, e sua nora Brasilina, tanto já fizeram para repatriar o andarilho, ou seja, tê-lo no seio da família, com casa, comida e roupa lavada, mas sempre levam um não do velho Noé.

  

Mas isso não é coisa para o Major Severino, pois ele gosta mesmo é da vida livre, das andanças pelas estradas do sertão, dos desafios, e de expressar a sua realidade subjetiva fora do controle da razão. O major é pura inspiração nas diversas manifestações profundas do inconsciente.

  

Severino é andarilho, é Noé, é surreal.

 

 

PELEJA DE SEVERINO NOÉ COM ZÉ RAMALHO NA TERRA DE AVÔRAI

 

 

http://www.zeramalho.com.br/sec_livros_texto_view.php?id=18&texto=13

 

 

Afonso Costa - Campina Grande / Paraíba

O Filósofo de Avôhai


Talvez seja a impiedade do sol causticante que penetrando as vistas, sem pedir licença, ofusque a alma à ponto de deixá-la tonta e desvairada, ou quem sabe, seja o contraste do cacto que floresce, delicado, por entre a agressividade dos espinhos, ou ainda, o paradoxo do sapinho "hibernando" sob a derme da terra esturricada pelos verões intermináveis, ou tudo isso junto resulte na alquimia que forja homens estranhos e envolventes. A bigorna que moldou Antonio Conselheiro continua produzindo "peças" disformes e curiosas.

Agora mesmo um espécime desses habita as Terras de Avôhai e atende pelo nome de Severino Noé, É poeta, é profeta. É asceta. Na sua vida que não tem data de começo nem previsão de fim tem sido andarilho contumaz, filósofo loquaz, observador voraz. Faz amigos por onde passa, estes, dão-lhe água, alimento e teto só para terem o prazer de ouvi-lo e a oportunidade de participarem de suas fantasias. Afinal, o que é fantasia e o que é realidade, qual é o formato da cerca que separa o concreto do abstrato? Severino Noé sabe. Sabe e diz. 

Diz que veio ao mundo numa barra de sabão. É possível alguém vir ao mundo por esse meio? Certamente. Se o grande poeta e intelectual Augusto dos Anjos afirmou de pés juntos "ser uma sombra e ter vindo de outras eras" porque outro poeta não pode ter vindo camuflado numa barra de sabão. Pois bem, um dia desses o filósofo e poeta Severino Noé encontrou numa encruzilhada da vida o também filósofo e poeta Zé Ramalho e os dois, como era de se esperar, travaram farpas em versos e desse extraordinário embate resultou o presente cordel. Para testemunhar o entrevero poético lá estava de Câmara a postos ,o hipersensível fotógrafo Aurílio Santos para que não venham dizer que não foi assim. E olha que Aurílio é a maior autoridade em Severino Noé pois tem filmado e gravado "in loco" andanças e falares desse filósofo sertanejo.

A surreal PELEJA DE NOÉ COM ZÉ foi filmada e gravada por Aurílio, anotada e testemunhada pelo advogado e professor universitário Orione Dantas, transcrita pelo poeta Afonso Costa sendo que tudo foi oficialmente registrado por mim na presente nota

Campina Grande-PB, Fevereiro de 2005

Manoel Monteiro
Da Academia Brasileira de Literatura de Cordel
 

 

-

Brasil

PF apreende bagagem de passageiro com R$ 700 mil em ônibus na Bahia

Brasil

Polícia encontra mansão de Rogério 157 no Morro da Rocinha; imóvel exibe luxo em todos os cômodos
© 2017. Catolé News. Todos os direitos reservados